“Apura tuas asas de lacra
Ascende-te
A dor controla terra e mar
Jamais as regiões do ar”
Eram quatro da tarde quando ao silêncio se sobrepôs a
voz:
- Senhor Professor está aqui uma senhora que pede
para ser recebida?
- Gala, sabe muito bem que já não dou consultas.
- Desculpe Senhor Professor, mas a senhora insistiu
muito e não me parece que pretenda uma consulta.
- Então o que pretende?
- Parece que se trata de um assunto particular.
- Um assunto particular?
Eu não tenho assuntos particulares.
Era abrupta a voz.
Gala conhecia bem o significado daquele timbre.
Trabalhava para Paul há quase vinte anos.
Aprendera a respeitar e a compreender os momentos em
que a reconhecida educação e a elegância de Paul se deixavam tentar pelo seu
génio.
(...)
«Todos os homens morrem às mãos de uma mulher».
Gala observava “The Lament for Icarus” quando, nas
suas costas, como um sussurro procedente do início dos tempos, uma voz, em
desafio, a interrompeu.
«Todos os Homens morrem, assim como, com a sua morte,
morrem todos os seus sonhos», respondeu sem se voltar.
Sem se deter, a voz prosseguiu discorrendo sobre o
quadro.
O traço outonal dos tons, a discreta decomposição das
asas, o semblante simultaneamente consternado e venerando das ninfas, o sol que
ao fundo se retira numa envergonhada culpa, o subtil movimento das águas, o
traço tumular da pedra.
Havia naquela voz, e no que dizia, um magnetismo
irrecusável.
Enquanto, silenciada, a escutava, Gala não se moveu,
não se voltou para o seu interlocutor, fixando o seu olhar na tela.
Pouco a pouco, abstraiu-se do lugar, cerrou as
pálpebras e centrou-se exclusivamente na palavra, assim se mantendo durante quase
meia hora.
Até ao momento em que a voz se fechou em conclusão.
«Os sonhos são abismos.
Os abismos são erguidos monumentos, monumentais
constrangimentos, constrangidos espaços que espaçam o tempo circunstancial».
Quando
o silêncio se esgotou, Gala voltou-se.
Surpreendente
era a corporização da voz.
Um
“menino” de fartos cabelos negros, impecavelmente vestido num fato preto, com
um irresistível olhar de criança.
Nas
largas horas que se seguiram, passearam nos jardins circundantes, de mãos
dadas, trocaram poemas, em récitas cruzadas, enquanto, ao longe, se pareciam
escutar violinos, em sinfónica sintonia.
Naquele
dia, aos quarenta e cinco anos, Gala apaixonou-se perdidamente por Paul, quinze
anos mais novo.
E
no mesmo dia em que percebeu que o seu mundo se tinha irremediavelmente
transformado, percebeu também que o seu amor nunca seria correspondido por Paul.
Apesar
dos violinos, apesar dos versos, apesar das mãos dadas em ternos olhares.
“És a minha utopia e a sua impossibilidade”, diria, em lamento, um dia.
Mas
foi também nesse dia que decidiu tornar Paul numa perpétua presença no tempo
que lhe restasse.
Assim
se tornou sua secretária particular, assim se tornou a única pessoa a conhecer
o mais íntimo e negro recanto de Paul, assim se tornou porto e abrigo.
(...)
Gala não respondeu, mantendo-se silenciosa.
Paul sabia bem o significado daquele silêncio.
- Desculpa, tu não tens culpa.
Diz-lhe que estou ocupado e não a posso receber.
Que venha noutro dia e que diga ao que vem.
- Nada há a desculpar, senhor professor.
Passados poucos minutos, o telefone voltou a tocar.
- Senhor Professor não se zangue comigo, a senhora
disse que era sobre um assunto relacionado com a falésia?
- Com a falésia?
- Sim, Senhor Professor.




