Domingo, 18 de Dezembro de 2011

V. GALA







“Apura tuas asas de lacra
Ascende-te
A dor controla terra e mar
Jamais as regiões do ar”








Eram quatro da tarde quando ao silêncio se sobrepôs a voz:
- Senhor Professor está aqui uma senhora que pede para ser recebida?
- Gala, sabe muito bem que já não dou consultas.
- Desculpe Senhor Professor, mas a senhora insistiu muito e não me parece que pretenda uma consulta.
- Então o que pretende?
- Parece que se trata de um assunto particular.
- Um assunto particular?
Eu não tenho assuntos particulares.

Era abrupta a voz.
Gala conhecia bem o significado daquele timbre.
Trabalhava para Paul há quase vinte anos.
Aprendera a respeitar e a compreender os momentos em que a reconhecida educação e a elegância de Paul se deixavam tentar pelo seu génio.

(...)

«Todos os homens morrem às mãos de uma mulher».
Gala observava “The Lament for Icarus” quando, nas suas costas, como um sussurro procedente do início dos tempos, uma voz, em desafio, a interrompeu.
«Todos os Homens morrem, assim como, com a sua morte, morrem todos os seus sonhos», respondeu sem se voltar.

Sem se deter, a voz prosseguiu discorrendo sobre o quadro.
O traço outonal dos tons, a discreta decomposição das asas, o semblante simultaneamente consternado e venerando das ninfas, o sol que ao fundo se retira numa envergonhada culpa, o subtil movimento das águas, o traço tumular da pedra.

Havia naquela voz, e no que dizia, um magnetismo irrecusável.
Enquanto, silenciada, a escutava, Gala não se moveu, não se voltou para o seu interlocutor, fixando o seu olhar na tela.
Pouco a pouco, abstraiu-se do lugar, cerrou as pálpebras e centrou-se exclusivamente na palavra, assim se mantendo durante quase meia hora.
Até ao momento em que a voz se fechou em conclusão.

«Os sonhos são abismos.
Os abismos são erguidos monumentos, monumentais constrangimentos, constrangidos espaços que espaçam o tempo circunstancial».

Quando o silêncio se esgotou, Gala voltou-se.
Surpreendente era a corporização da voz.
Um “menino” de fartos cabelos negros, impecavelmente vestido num fato preto, com um irresistível olhar de criança.

Nas largas horas que se seguiram, passearam nos jardins circundantes, de mãos dadas, trocaram poemas, em récitas cruzadas, enquanto, ao longe, se pareciam escutar violinos, em sinfónica sintonia.
Naquele dia, aos quarenta e cinco anos, Gala apaixonou-se perdidamente por Paul, quinze anos mais novo.
E no mesmo dia em que percebeu que o seu mundo se tinha irremediavelmente transformado, percebeu também que o seu amor nunca seria correspondido por Paul.
Apesar dos violinos, apesar dos versos, apesar das mãos dadas em ternos olhares.

“És a minha utopia e a sua impossibilidade”, diria, em lamento, um dia.

Mas foi também nesse dia que decidiu tornar Paul numa perpétua presença no tempo que lhe restasse.
Assim se tornou sua secretária particular, assim se tornou a única pessoa a conhecer o mais íntimo e negro recanto de Paul, assim se tornou porto e abrigo.

(...)


Gala não respondeu, mantendo-se silenciosa.
Paul sabia bem o significado daquele silêncio.

- Desculpa, tu não tens culpa.
Diz-lhe que estou ocupado e não a posso receber.
Que venha noutro dia e que diga ao que vem.
- Nada há a desculpar, senhor professor.

Passados poucos minutos, o telefone voltou a tocar.
- Senhor Professor não se zangue comigo, a senhora disse que era sobre um assunto relacionado com a falésia?
- Com a falésia?
- Sim, Senhor Professor.





4 comentários:

  1. Boa tarde, amigo Giraldoff! Passando para desejar um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de coisas boas, muita harmonia, paz, amor e $uce$$o!

    Abraços e beijos nossos,

    Jorge e Dani

    Tudo de Bom!

    ps: Estou deixando de utilizar meu heterónimo Luiz Sommerville Junior e voltando a usar meu apelido de família, JouElam.

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  2. Também sei de utopias e das suas impossibilidades :-))
    Com franca atracção pelos abismos, agradecemos que nunca desistas de perseguir os sonhos.

    (Reencontro-me neste Conto, Romance, Ensaio filosófico. Reencontro-me e quero o Livro!!!!!! Faxfabore:-))

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  3. Todos os abismos são meus, Filipe, desde a macia infância. Jogado de encontro às falésias de mármore (meus olhos buscando, as portas abertas às novas percepções), meu peito esmurrado, nunca se negou às utopias e suas impossibilidades. Sendo de salientar, que todas as impossibilidades, são como janelas fechadas: e janelas fechadas, são como olhos para nada. Continua a nos brindar, reescrevendo tudo quanto ainda não foi dito.

    Abraços meus.
    jorge Humberto

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  4. Entre Dédalo e Ícaro, este texto decorre entre as asas e o voo, e os passos sobre a terra. Como, aliás, já o início o prenuncia.

    Se, por um lado, existe uma fascinante presença de um intemporal tempo que surge, “como um sussurro”, do “início dos tempos”; por outro, há um crepitante passo que, provindo do ar, aterra, constatando a impossibilidade desse mesmo voo de onde procedeu.

    Contudo, o intemporal tempo preserva-se, sob a forma de uma “perpétua presença”, e desse prolongado tempo brota, como uma debruada flor, uma crescente, aprofundada e inata compreensão do Outro que reconhece, tanto nos gestos como nas falas (ou no seu tom), uma inequívoca significação.

    “Era abrupta a voz.
    Gala conhecia bem o significado daquele timbre”

    E onde até as palavras não ditas se escutam como se tivessem sido pronunciadas:

    “Gala não respondeu, mantendo-se silenciosa.
    Paul sabia bem o significado daquele silêncio”

    E, por falar de voz, é de realçar a presença constante do Som neste trecho.
    Não só em “abrupta voz”, “timbre”, “silenciosa” e “silêncio” como em frases como

    “quando ao silêncio se sobrepôs a voz”
    “Até ao momento em que a voz se fechou em conclusão”
    “quando o silêncio se esgotou, Gala voltou-se.”

    Em que Som e Silêncio se complementam, já que o início de um pressupõe o fim do outro e, associado ao Som, está a ideia de movimento – uma boca que abre, um corpo que se desloca tentando colmatar o silêncio, uma voz que, apanhada de surpresa, solta um grito de exclamação ou uma entoação subtil.

    Mas a voz, desde o “início dos tempos”, encontra-se ligada a uma forma de encantamento: a voz que conta as histórias, a voz do Profeta que prenuncia, a voz que torna mágicas as palavras que abrem portas misteriosas para jardins deslumbrantes ou grutas repletas de tesouros.

    Assim, a voz que discorre sobre o quadro é a voz que impõe silêncio (e imobilização) no ouvinte, é a voz que corporiza a poesia, é a voz que induz outros sons (violinos, sinfonias) e, como não podia deixar de ser, que tem, de alguma forma, de se assemelhar ao corpo que a emite (nos olhos perscrutadores e curiosos, nos gestos magnânimos e precisos, na postura esbelta, quase etérea, do corpo).

    “Enquanto, silenciada, a escutava, Gala não se moveu, não se voltou para o seu interlocutor”
    “trocaram poemas, em récitas cruzadas”
    “enquanto, ao longe, se pareciam escutar violinos, em sinfónica sintonia”
    “Surpreendentemente era a corporização da voz.”

    Uma presença de tal forma significante e significativa que transforma irremediavelmente o mundo, tem de surgir, indubitavelmente, quando menos se espera... Daí que surja de trás, oculta do (e pelo) cenário, assim se tornando aparição e magia, voz sobre espaço, tempo sem Tempo – espaço infindo.

    Se todos os Homens morrem e, com eles, todos os seus Sonhos; estamos perante um Ícaro que ousou atingir alturas inadmissíveis e cujo Sol derrubou, derretendo a cera das suas asas:

    «Os sonhos são abismos.
    Os abismos são erguidos monumentos, monumentais constrangimentos,
    Constrangidos espaços que espaçam o tempo circunstancial»

    Mas Sonhos há que se inscrevem nitidamente no tempo, que se enlaçam ao corpo como duas mãos que se entrelaçam, caminhando em jardins circundantes, e que suspendem o olhar, metamorfoseando o espaço em algo integralmente imaterial onde apenas a Palavra existe num incorpóreo traço de luz.

    «Pouco a pouco, abstraiu-se do lugar, cerrou as pálpebras e centrou-se exclusivamente na palavra, assim se mantendo durante quase meia hora.»

    Mas que luz é essa que atravessa o Sol e os dias, que se distende dos ramos à raiz, e que concatena representação e palavra, senão a que materializa, em voz, uma profusão de imagens, acompanhando os olhos pelo «traço outonal dos tons», pelo «subtil movimento das águas», pelo «traço tumular da pedra» e por um voo que se alonga nesse Ar onde as asas se apuram e a dor jamais se inscreve.

    É, sem dúvida, com mestria, que o narrador traz, em canto e encanto, o canto encantado de uma Voz.

    “como um sussurro procedente do início dos tempos”

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